30.3.09

Sou um coitadinho mas (não) quero que se saiba

Ele desempenha a função de Relações Públicas de um estabelecimento de diversão nocturna, daqueles frequentados por janotas envolvidos em nuvens de água de colónia, e ele concedeu uma entrevista a uma daquelas revistas de fim-de-semana a pender para os tons rosa, daquelas cujas páginas são invadidas por gente anónima disfarçada de alguém que julga ter feito alguma coisa importante.

Este indivíduo tem destaque em duas páginas, com uma fotografia a toda a altura de uma das páginas, e olhando para a sua fácies e para o nome dele, não é difícil concluir que esta é uma personagem da qual a esmagadora maioria da população portuguesa nunca ouviu falar, mas que a partir de agora vai passar a fazer parte do cardápio dos emergentes sociais. Mergulhando no texto ficamos a conhecer os dois motivos para a concessão desta entrevista: ele é alguém importante para um conjunto de pessoas que o conhecem, mesmo que uma minoria de esclarecidos que saem à noite; ele é seropositivo e quer mostrá-lo a todo o país.

E é aqui que a porca torce o rabo, sem qualquer ideia de segundo sentido. Este indivíduo conta a história que assolou a sua vida: há dois anos descobriu que estava infectado com o VIH e desde então tudo foi diferente. Ele era um pacato cidadão do mundo, tinha uma relação de oito meses e sempre que mandava uma cambalhota marota enfiava-se dentro da camisinha (entendam isto na perspectiva que quiserem). Mas uma vez, uma única vez, a camisinha ficou na gaveta, e a partir de então foi uma sucessão de azares daqueles de não se desejar a ninguém.

Então não é que a cara-metade deste nosso amigo convivia com o vírus há uns anos e não lhe tinha dito nada (um acto de perfídia, confessaria o relações públicas)? E não é que naquela única relação sexual desprotegida o raio do bicho resolveu picar com toda a força? Ele que sempre se precavera dos riscos mais prementes. E logo naquele dia em que a piroca andava ao léu o bicho não estava distraído.

Mas a sucessão de azares não fica por aqui, amiguinhos. Trancada mandada, trancas à porta. O indivíduo começou a sentir-se cansado, começou a sentir-se afectado por constipações sucessivas das quais levava imenso tempo a livrar-se, começou a perder peso. Perdeu cinquenta quilos. Feitos os exames médicos descobriu que tinha a porra do bicho. E como um azar não vem só, o indivíduo não está sequer a ser medicado porque o vírus é resistente aos fármacos que ajudariam a controlar a infecção. Eventuais feridas que surjam levam muito mais tempo a cicatrizar, e por isso mesmo, num acto de grande lucidez, para evitar complicações, o relações públicas ponderou alguns cuidados. Uma das medidas mais imediatas foi depilar a barba a laser... que é algo que se aconselha aos seropositivos. Antes de pagarem os medicamentos, que são baratinhos, depilem-se a laser, que também é baratucho. A segunda medida mais imediata talvez tenha sido conceder esta entrevista, que é outra coisa que também se aconselha a quem está doente, nem que seja com uma simples rinite alérgica. Ele diz que foi difícil no meio onde trabalha as pessoas lidarem com a situação, mas que agora já começam a entender e vêem-no como o relações públicas, o relações públicas seropositivo.

Existe no entanto algo que o preocupa mais do que tudo. O modo como a irmã de 13 anos poderá encarar esta situação quando souber o que se passa. Eu estou em crer que talvez não ache grande piada quando abrir esta revista lá na escola, ou quando se cruzar com alguém no autocarro a ler a entrevista, e se deparar com a figurinha que o irmão está a fazer.

6 comentários:

Anónimo disse...

Olá, que revista é essa e quem é o RP?
Rita P.

Mais um homem... disse...

Desculpa não percebi uma coisa, quem lhe pegou o vírus, a companheira ou a pessoa com quem teve um caso?

Bruno disse...

Olá, Rita P., a revista creio que era a Vidas (acho que é um dos suplementos do Correio da Manhã), e o nome do senhor não fixei, não conheço. Não deve ser figura conhecida, a não ser nos meandros em que se move.

Bruno disse...

Olá, Mais um homem, o vírus foi-lhe transmitido pela pessoa com quem ele tinha uma relação há oito meses, e com quem teve uma vez uma relação sexual desprotegida. Teriam uma relação há oito meses, e supostamente a pessoa de onde surgiu a infecção sabia que era portadora do VIH e não lhe disse nada. Foi o que li na revista.

A disse...

Para os mais curiosos, toda a notícia aqui: http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=5EBBA546-F00D-480F-ADFC-6C1279BFBEAE&channelid=00000133-0000-0000-0000-000000000133

RMP disse...

Grande texto.