A sustentar calinadas no 24 Horas há mais de 1300 euros
É sempre com um enorme prazer e uma não menor expectativa que chego ao meu posto de trabalho na segunda-feira de manhã e me lanço sobre a edição do jornal 24 horas. Ele determinará o que posso ou não esperar da minha semana.
Se a edição de segunda-feira alcançar o nível desejado, então a minha semana será elevada aos píncaros da espectacularidade. Se estiver mal concebida, mal enjorcada, fechada à pressa e pejada de equívocos e de fotografias de agência ou de festas com personagens-que-ninguém-conhece-só-para-encher-papel, então a minha semana vai com toda a certeza ser uma merda.
E esta segunda-feira não fugiu à regra. Cheguei ao local de trabalho, descalcei os chanatos e pus os pezinhos ao fresco dentro de duas socas Birkenstock.
Folheei então com agrado as páginas iniciais do pasquim-vinte-e-quatro-horino... aquela história fantástica do Jorge Jesus ao lado do Cróife, desenterrada do cemitério das histórias ocultas do futebol português, nem o Stóitjecóve se lembrava da personalidade fulgurante do nosso JJ. Só acho relativamente abusivo dizer que aquele estágio em Barcelona transformou a carreira do Jorge Jesus. Isso não é factual, e acho que o jornalismo deve guiar-se pela busca do que é concreto, mas isto sou eu que digo, que nada entendo dessa profissão de artistas bem pagos e com vidas de glamour e ostentação.
Bem me esforcei, mas o dia não estava para grandes leituras. Até porque logo na primeira página fui tocado pela comoção, depois de ter lido a frase do Rogério Samora, acerca da morte da avó no mesmo dia em que ele completou 50 anos, quando diz: "Se não fosse ela, talvez eu não tivesse nascido". Se não fosse a avó dele, o RS não teria nascido. E se o Rogério Samora tivesse rodas... seria um segway. E isto sim é factual.
Era este o cenário que estava traçado para a minha manhã quando tentei mergulhar a fundo nas primeiras páginas do 24 Horas.
E devo confessar que fiquei ainda mais confuso quando, na página 28, choquei de frente com um texto sobre os "humoristas" do Telerural. Eles queixam-se do provedor do telespectador da RTP.
Até aí tudo bem, até os humoristas do Telerural têm o direito a manifestar-se num jornal de referência como o 24 Horas. O 24 Horas não pode ser apenas um repositório de notícias sérias ou de aprofundadas análises sobre a conjuntura económica internacional, nem pode ser apenas um palco de extensas dissertações sobre o universo cultural de elite da RTP2. É preciso alargar o espectro e saber chegar a todos os públicos.
É por isso legítimo questionar o subtítulo desse texto, que revela que os guionistas do referido programa estariam descontentes com o Provedor do Telespectador, espaço conduzido por um "paquete". Tentei perceber se estariam a falar de um "paquete", um navio de grandes dimensões, que circula entre as Caraíbas, o Mediterrâneo, e o arquipélago da Madeira... ou se o "paquete" que conduz o tal programa do Provedor seria um "paquete" daqueles que distribuem encomendas ou são pagos à jorna para fazerem recados. Uma espécie de Bruno Fehr mas com miolos na caixa encefálica em vez de titica de galinha ou de laudas de referências googlianas amarfanhadas em bolas de papel. Consegui perceber que o "paquete" a que se refere a notícia é o paquete do Oliveira, o que me deixou na mesma. Verifiquem lá isso, e depois digam-me quem ou o que é o tal paquete, para eu tentar entender o que se passa.
Mas mais perturbado fiquei quando saltei para a chamada zona VIP... Aquela em que surgem as pessoas ditas bonitas, espectaculares, as pessoas "tásse" (de tásseachandoumagrandemerda). No canto superior esquerdo da página 38 aparece a fotografia mais enigmática de toda a edição do 24 Horas: o garboso jornalista da TVI, Sousa Martins (não confundir com aquele que comunica directamente com a Pomba Gira Linda Reis, e que tem direito a estátua no Campo de Santana, junto à Faculdade de Medicina), acompanhado de alguém do sexo masculino com aparência bastante "alternativa"...
A legenda mostra um enigmático "O jornalista da TVI, Sousa Martins, foi com a namorada Marta Wahnon ao aniversário do Joalheiro Gil de Sousa".
Não acham a legenda só um bocadinho desadequada? Onde está a Marta Wahnon? Será esta personagem que está agarradinha ao Sousa Martins? Estará no bolso deste homem que, entre outras coisas, faz também broches? Não percebo, sinceramente.
É que dar 75 cêntimos todos os dias para ficar neste estado de confusão está a sair-me caro: por mês são 22 euros e meio, o que perfaz ao longo de um ano 270 euros, o que ao longo de cinco anos dá mais de 1300 euros. Meus amigos, eu não ganho para sustentar as vossas notícias que deixam por esclarecer aspectos fundamentais da vivência humana e que determinam o karma de uma semana de trabalho, e não esperem que vos mande levar no "paquete", amanhã estarei de novo com mais 75 cêntimos a voarem da carteira à espera de novas surpresas, novos karmas, novas viagens.
Jorge Jesus, Rui Santos e o picaretismo falante
É a primeira vez que vejo um treinador sentado no banco com um cachecol do próprio clube ao pescoço. O Jorge Jesus arrisca-se a cair no ridículo, e pelo andar da carruagem o Benfica arrisca qualquer dia ter o Barbas no banco a dar instruções.
Quando ao Rui Santos, fica provado que se esqueceram de ensinar o senhor que a grande virtude (virtualidade, como ele diz) de um comentador de jogos de futebol é saber ficar calado. Assistir a um jogo de futebol com uma picareta falante constantemente a martelar nos ouvidos é, deixam-me que vos diga, uma tortura. Suplico por alguns segundos de silêncio. Apenas isso... Porra!
Não há coincidências
Os meus olhos viraram-se para uma das prateleiras cá de casa onde estão arrumados alguns livros – grandes, pequenos, altos, baixos, magros, gordos. Sem se fixarem em nenhum atributo em particular, viajaram pelas lombadas daqueles edifícios moribundos como dedos que escorregam felizes pelas oitavas de um teclado de piano.
Agarrei ao acaso no Até Onde Se Pode Ir?, do escritor britânico David Lodge, romance que nos transporta até à epopeia de um grupo de jovens durante a época da libertação sexual na Grã-Bretanha, acompanhando as dores de crescimento de uma geração atormentada por fantasmas do passado e assustada com os desafios de futuro. Abri o livro, folheei-o, e recuperei à memória a sensação da leitura original.
Na primeira página, uma anotação pessoal e a data da aquisição do livro: 3 de Novembro de 1998. Precisamente onze anos haviam passado. E ao folhear Até Onde Se Pode Ir?, também eu recuei àquele tempo, acossado pelos fantasmas do passado, e lá chegado, assombrado pelos desafios deste futuro que já se cumpriu.
Comprar um livro, concordem ou não, é um acto de paixão. A afecção conduz à ilusão do sentimento, que pode desfazer-se ou agudizar-se nas voltas do texto. Os livros acompanham-nos em silêncio, e embora muitas vezes possamos não ter sequer tempo para eles, ali permanecem sempre disponíveis, como frutos a pender da árvore, à espera para serem colhidos, digeridos. São, de facto, os nossos melhores amigos.
Pipoca e língua: duas impossibilidades teorico-práticas
Existem poucas coisas mais incomodativas do que comer pipocas doces e ficar com um valente pedaço de casca de milho colado numa zona inacessível da língua.
Vão roubar prá estrada!
Uma pechincha: 60 euros para ver o Sporting de Braga - Benfica. Eu pergunto se o Messi ou o Thierry Henry vão fazer uma perninha no Braga, ou se o presidente da SAD do Braga contratou o Bono para cantar no intervalo? Já vi no metropolitano formas mais simpáticas de ir ao bolso de um distraído (ainda lhe devolviam os documentos). É que pagar 60 euros e ter de levar com isto ao intervalo, só mesmo para quem anda muito distraído ou para quem demonstre uma muito boa vontade. Há um momento neste vídeo que me deixa desarmado, é quando lá em fundo se ouve um índio que ruge um enigmático: "vai pra casa, ó espanhola!"
Armando Vara e Dias Loureiro - similitudes
Ambos são arguidos em processos relacionados com o sistema bancário português, ambos desempenharam funções governativas na pasta da Administração Interna, ambos foram protagonistas durante o bloqueio da ponte, a 24 de Junho de 1994. E embora seja mais difícil encontrar um bem em nome de Manuel Dias Loureiro do que dados sobre o percurso académico de Armando Vara na Universidade Independente, é garantido que ambos auferem um pouco acima do salário mínimo. E ambos aparecem um ao lado do outro nos Painéis de São Vicente, do pintor Nuno Gonçalves. Procurem aqui (ou in loco no Museu Nacional de Arte Antiga).
A mão do Benfica
A história do Benfica é fértil em fenómenos da genética difíceis de explicar. Depois de um jogador com três dedos (Shéu Han) e de um outro com seis (Álvaro Magalhães), o Benfica encontrou agora um treinador com quatro dedos: Jorge Jesus.
E para os lados da Luz aquilo anda meio complicado é para conseguir que o Aimar se mantenha em pé por muito tempo. Porventura algum problema no ouvido interno, quiçá sintomas primários da doença de Ménière.
O fim do Verão
O dia de hoje assinalou para mim o fim da estação. O Verão foi tão trabalhoso quanto proveitoso. E aqui fica parte dele, comprimido em cinco minutos de fotografias, que não serão nem as melhores nem as mais relevantes, mas que compõem um esboço do conjunto. Venha o próximo e prepare-se as próximas viagens. A Oriente ou não.
Jinga vai arrombar...
Apertem os cintos, cambada, é que já não falta muito para entrarmos na era de Jinga!
Mui breves notas de viagem
- Ontem cruzei-me com o carro do Google Street View. Andava numa estrada nacional, algures entre Vouzela e São Pedro do Sul.
- O que é mais prioritário? Uma auto-estrada entre Viseu e Vila Real (que já existe) ou uma entre Coimbra e Viseu (que tarda)? Ou ambas? Ou será que uma terceira ligação em auto-estrada entre Lisboa e o Porto?
- E por falar na Invicta, duvido que exista um panorama das cidades do Porto e de Gaia que seja tão inspirador como o que tenho deste 20º piso, uns bons 60 metros acima do chão.
- Para não variar, o Porto está hoje envolvido naquela irritante neblina que não cobre nem sai de cima.
- Com este, entre fins-de-semana, férias e viagens de trabalho, já vão 18 hotéis este ano.
- Isto quer dizer que em nove meses, seis semanas foram passadas fora de casa.
Siga para Jinga!
A declaração de Cavaco
O que poderá o Presidente da República dizer na sua declaração à comunicação social, ninguém sabe. A minha expectativa é que diga a verdade. É isso que devemos esperar dele.
Nada se sabe sobre o teor da intervenção de Cavaco Silva, mas esta poderá incidir sobre:
1. O PS foi o partido que conquistou mais mandatos parlamentares, no cumprimento do que está expresso na Constituição o Presidente anunciará que vai chamar José Sócrates e convidá-lo a formar governo.
2. As notícias publicadas nos jornais, e que aludem a uma alegada vigilância à Presidência da República, não têm qualquer fundo de verdade.
Qualquer outro que seja o teor da declaração presidencial - admitindo, por exemplo, a existência de suspeitas sobre vigilância a Belém, o que será bastante improvável -, significará a abertura de um conflito institucional sem precedentes na História da democracia portuguesa. Não o faria numa declaração ao país.
A mensagem poderá servir a Cavaco para medir o pulso aos acontecimentos, tendo em vista a recandidatura, mas pode mesmo suceder que Cavaco deixe no ar a sua indisponibilidade para um segundo mandato em Belém.
Seja como for, qualquer dos dois pontos acima citados fragiliza o Presidente. E a falta de um esclarecimento cabal sobre o assunto da vigilância será a morte do artista.
Resumindo, qualquer que seja a postura presidencial perante qualquer dos cenários, Cavaco Silva está tramado.
Resta saber quem urdiu a trama. Mas esse é um esclarecimento que certamente não será a Presidência a revelar.
A visão futurista de Fernando Rosas
Um dos grandes momentos desta noite eleitoral foi o discurso do bloquista Fernando Rosas. Sim, senhor! Foi de valor!
Não é que num rasgo de audácia centralista, o deputado eleito do Bloco de Esquerda chamou aos Açores e à Madeira: "Ilhas Adjacentes" (que por acaso era a designação que lhes era dada no tempo da "outra senhora").
Assim se ensinavam os petizes de então, no tempo em que a Cartilha Maternal de João de Deus pontificava nos tampos inclinados das secretárias de tantos estabelecimentos de Ensino Primário, naquele tempo da nossa História em que o Império se estendia do Minho a Timor... Com que então "Ilhas Adjacentes", sim senhor!
Um mero lapsus linguae ou apenas vícios antigos? Será esta a primeira medida de entendimento entre o novo governo socialista e o reforçado grupo parlamentar do Bloco de Esquerda? Veja lá isso, senhor Rosas, não queira tranformar a plataforma continental adjacente num pólo centralista das elites...
Eleições
Isto não é uma sondagem, nem sequer uma projecção, apenas uma previsão:
PS - 33-35
PSD - 31-33
CDS - 9-11
PCP/PEV - 9-11
BE - 8-10
MEP - 1-2
outros - 2-4
BRANCOS/NULOS - 4-6
Putativo Elenco Governativo
Primeiro-Ministro - José Sócrates
Ministro das Finanças - Teixeira dos Santos
Ministra da Educação - Isabel Alçada
Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - Carlos Zorrinho
Ministro da Cultura - Elísio Summavielle
Ministro da Economia - Murteira Nabo
Ministro da Juventude e do Desporto - Laurentino Dias
(Sec. Estado do Desporto - Olegário Benquerença)
Ministro da Administração Interna - Júlio Pereira
Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações -???
Ministro da Agricultura e Pescas - Fernando Serrasqueiro
Ministro do Ambiente -???
Ministro da Defesa -??? Severiano Teixeira ???
Ministro da Justiça - Pedro Silva Pereira
Ministro dos Negócios Estrangeiros -??? Gomes Cravinho ???
Ministro da Saúde - Francisco George
outros ministeriáveis:
Idália Moniz
Fernando Serrasqueiro
Ana Paula Vitorino
António Vitorino
Passagens de Lisboa #6
A delicadeza é efémera, os gestos contundentes, as palavras demoradas. Esquece o instante, perdida no artesanato das letras e engolida na arqueologia da escrita como a vontade de uma personagem que não sabe o trajecto da sua história. Rodeia-se da construção do momento para justificar o erro da memória sem futuro.
O sorriso é órfão. Um filho sem lembrança do passado, à procura de uma herança de futuro. Um cigarro inflamado preso aos seus dedos. E a sabedoria que se esconde por detrás daquela dor incandescente, como quem não ousa revelar e apenas persiste na evidência de um contorno. Assim é Lisboa, paciente, à janela dos dias a ver quando chegam os incertos de Outono. E sempre chegam...
O artista português
Somos punks ou quê!?
O Punk já não é o que era...
Muitos fãs estarão porventura chocados e outros até já terão feito em pedacinhos os cartões de sócio do clube de fãs.
Este fim-de-semana, a TV7Dias escancarou imagens comprometedoras de Tim, o mítico baixista e - há até quem diga - vocalista da histórica banda Xutos e Pontapés.
Nessas fotos, Tim (que é mais ou menos o nome que todos os punks ambicionam ter) aparece às compras de mão dada com a família, com umas sandálias de ir ao pêssego e umas calças de gosto duvidoso em tom amarelo, pejado de cornucópias que aparentam floreados.
Mas o que e isto!? Mas o que é isto, meus amigos!?
Somos punks, ou somos pinks?
Neste vídeo do programa de hoje dos Gato Fedorento, Tim (o pink) surge ao minuto 9:00 tecendo uma muito pessoal análise ao estado da campanha...
Mas chamo a atenção para o que está antes: ao minuto 8:25, José Sócrates surge em acção de campanha, colando-se ao discurso proferido 14 anos antes por Durão Barroso (8:30).
Plágio fehriano ou apenas convergência política?
Senhor Engenheiro
Não percebo a insistência no tratamento dado ao primeiro-ministro, secretário-geral do Partido Socialista e candidato a chefe do governo por "Senhor Engenheiro".
Em contraposição, por exemplo, à forma de tratamento dado ao secretário-geral do Partido Comunista, Jerónimo de Sousa, por "Senhor Jerónimo".
Quando, na verdade, um é tão Engenheiro quanto o outro.
Ele é "Senhor Engenheiro" para aqui, "Senhor Engenheiro" para ali, "Senhor Engenheiro" para acolá.
Tecnicamente - que não subjacente à anglofonia técnica do interlocutor - José Sócrates não é Engenheiro.
Teria, para tal, de estar inscrito e vinculado à Ordem profissional correspondente, sujeito a quesitos e prova de admissão, como tantos engenheiros civis, electrotécnicos, navais, químicos. Com trabalho efectivo nas respectivas áreas. Licenciados. Em dias da semana. Úteis.
Para os outros casos, de gente habilitada com o diploma de bacharel, ou até mesmo licenciados mas não inscritos na Ordem profissional, sugiro a criação de uma Ordem dos Engenhocas.
"Senhor Engenhocas" para aqui, "Senhor Engenhocas" para ali, "Senhor Engenhocas" para acolá...
Engenheiro Bruno Costa
Isto é contigo!
Amigo: se tens ambições em chegar a Jinga, se o teu sonho é um dia num jantar de amigos poder dizer que já colaboraste em Jinga (vulgo: um sabujo de um bufo à beira de apanhar um ganda pifo), se tens alguma informação que consideres importante sobre Jinga, contacta-nos. Traz numa mão o teu bloco cheio de notas à moda de um treinador modernaço, na outra mão o teu bloco de cimento, e nos membros inferiores um tornozelo livre. Anda saltar connosco, miúdo, vinde mergulhar nas profundezas do oceano em busca da galera perdida de Jinga. Não sabes o que é Jinga? Oh, diacho... E vieste cá precisamente com o propósito de saber o que é Jinga mas os tipos que mandam neste folheto informativo tardam em esclarecer-te e, inclusive, perguntam se tens alguma informação decisiva sobre algo que eles próprios não souberam ainda explicar o que é? Tens então duas alternativas, mancebo: ou bem que voltas cá quando nesta nação terminar o clima de guerra alcoólica importado por uma invenção macaca chamada semana académica eleitoral; ou bem que nos ajudas a completar o puzzle Jinga, enviando as tuas preciosas informações para o recanto que arranjámos para te ajudar a depositar angústias, indignações, passes mágicos para o maravilhoso mundo de Jinga.
Esmiuçando as escutas
Quando disse que esta campanha ia ser só rir, não estava a referir-me directamente ao programa dos Gato Fedorento, ao qual tão lestos e precisos todos os políticos portugueses estão a aderir. Parece que descobriram de um momento para o outro que uma certa ideia de descontracção também pode dar votos. Da maneira como está o país, o melhor é mesmo levar isto na descontra.
Mas o programa dos Gato Fedorento ao lado do que têm sido os factos e argumentos de campanha é uma espécie de Camilo, o Pendura em confronto com os Monty Python, sendo que só o brilhantismo destes será capaz de concorrer com o nonsense dos vários acontecimentos que têm minado os últimos dias de confronto eleitoral.
Escutas e casos
Coscuvilhar e intrigar a vida alheia sempre foram actividades muito portuguesas. E continuarão a ser, se Deus quiser.
Não invoco aqui o nome de Deus em vão. Ele é o Tal que é omnipresente e omnipotente. E como se verifica, há situações em que um contacto próximo com Ele dá um jeito enorme.
A campanha tem sido um fartote de rir. Desde os "mais papistas que o papa" militares da GNR da Coina, que multaram e apreenderam viaturas da caravana socialista por falta de documentação em ordem, para dois dias depois um senhor da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, por acaso dependente do Ministério da Administração Interna, ter dado ordem para libertar as viaturas e devolver o valor da coima pago pela contra-ordenação. Dois dias depois. E ainda dizem mal deste Governo. Oxalá toda a Justiça fosse igualmente lesta.
O caso do telejornal silenciado, ou o das pressões aos juízes do caso Freeport, ou até a tentativa de incursão do SIS (sob a alçada do Governo) nas investigações sobre eventuais fugas de informação no mesmo caso Freeport.
E depois o caso dos dinheirinhos para os "novos militantes" do PSD a troco de um voto na eleição para a distrital de Lisboa. Uma notícia que caiu sabe-se lá de onde, a poucos dias das eleições. Um balão de ar que sucumbiu logo ao final da noite, quando foi destapada a primeira página do DN da manhã seguinte.
O caso promete brindar-nos durante muitos e bons dias com novos espasmos de risota, até porque quase tudo está por explicar: como foi possível correspondência trocada entre jornalistas do Público ter ido parar, no mesmo dia e sabe-se lá por alma de quem, a dois jornais concorrentes? Esta é apenas a última pergunta entre tantas que estão por responder.
Encomendar a alma ao diabo
A notícia do Diário de Notícias surpreende-me. Jornalistas (do DN) publicam correspondência privada, trocada entre outros dois jornalistas (do Público), sem qualquer sentido ético ou respeito pelo sigilo profissional dos seus colegas.
Não só os jornalistas do DN destapam uma fonte que deveria permanecer anónima, como publicam correspondência privada entre jornalistas profissionais que nem português correcto sabem escrever.
Mas sobretudo acusam o Público de publicar uma notícia encomendada (apenas porque uma fonte lhes faculta informação), expondo-se o próprio DN à possibilidade da mesma acusação, a de trazer a público uma notícia encomendada (afinal, também alguém lhes facultou informação, alguém que não sabemos quem foi.) Encomenda por encomenda, sempre prefiro a do Público.
Eles andam aí
E sempre andaram. E se no tempo do cavaquismo tudo era feito às claras e as suas movimentações eram facilmente identificadas, desencadeando consequências mais ou menos directas, agora actuam na penumbra e as consequências são invisíveis a e bem mais devastadoras. Aqui há tempos, a Visão publicou um interessante artigo em que denunciava que José Sócrates pretendia criar uma nova polícia secreta, "uma espécie de secreta privada do primeiro-ministro". Dizia-se até que já funcionaria no edifício do Conselho de Ministros.
O primeiro-ministro espigou-se, mas depressa o balão esvaziou e nunca mais se ouviu falar disto. (Parece que desde então a Visão se tem portado bem, e agora até já tem direito a receber a brochura publicitária da RAVE, aludindo às virtudes dos comboios de alta velocidade.)
Júlio Pereira é o homem que toca este cavaquinho. É um homem da confiança do primeiro-ministro, coordenador do SIRP, a entidade que engloba os serviços de informações, e que responde directa e exclusivamente a uma entidade, o primeiro-ministro. Há pouco mais de um ano, o seu nome chegou a ser falado para se ocupar do cargo de secretário-geral de Segurança Interna, mas à última hora o primeiro-ministro terá recuado e Júlio Pereira continua à frente das secretas. Vá-se lá perceber os motivos.
JINGA!!!
Em breve, neste local e a uma hora bastante improvável, a visita guiada ao alucinante mundo de Jinga. Uma vasta equipa de escribas e seleccionadíssimas fontes vêm trabalhando afincadamente, dia após dia (e, não raras vezes, noite após noite), para levar até si este que, embora desconhecido, vai transformar-se num dos mais fascinantes e intrigantes episódios da História fofinha de Portugal.
Tornou-se já, o acontecimento Jinga, mais do que numa mitificação, numa realidade roliça. Mais do que um fenómeno do imaginário popular, Jinga é toda uma atitude, todo um perfume de mulher, todo um queijo. Toda uma linha de cosméticos, também.
Em breve, neste local e a uma hora bastante improvável. Enquanto a cidade vive na euforia de mais uma espécie de semana académica eleitoral, com churros, bombos e coiratos, os nossos colaboradores trabalham cheios de pundonor para, logo em que cessem as festividades e a calma volte a reinar nas margens do rio, se faça emergir o mito, se conquistem em definitivo os corações de todos os que se arrogam de não sentir o feitiço de Jinga.
Estamos a chegar lá... Jinga existe.




