19.3.09

Os pontapés na gramática

Andam por aí uns iluminados da tola, Cristianos Ronaldos do bom português a marcar livres enviesados com a língua de todos nós, paladinos do bem saber, que se arrogam no conhecimento que não têm para corrigir o que julgam estar errado, e que mais não são do que os arautos do ridículo e da inverdade pífia. É com a intenção de esclarecer alguns dos erros propagados por essa gente, e procurando contribuir para evitar a multiplicação da asneirada, que aqui deixo breves pistas para o esclarecimento de algumas das dúvidas e dos logros mais frequentes.

Devo dizer "lídres" ou "lide(é)res"?

O plural da palavra "líder" é "líde(é)res", e é assim que ela deve ser pronunciada. A sílaba tónica é a primeira, embora a segunda seja igualmente acentuada. Deve dizer-se "líde(é)res" e não "lídres", tal como não dizemos "cadávres", nem "repórtres".


Devo escrever "contracto" ou "contrato"?

Um acordo firmado entre duas ou mais entidades é um "contrato".

"Contracto" é apenas uma forma derivada de "contracção".


É correcto dizer que "Amanhã é segunda-feira", apesar de "amanhã" remeter para um tempo futuro e a forma verbal utilizada representar um tempo presente? Ou deverei optar única e exclusivamente pela expressão "amanhã será segunda-feira"?

Nada há de errado em dizer "amanhã é segunda-feira". O presente do indicativo não enuncia apenas o tempo presente, poderá em algumas circunstâncias designar também uma acção futura, atribuindo-lhe o cunho e a certeza de actualidade. A formulação "amanhã será segunda-feira" é igualmente correcta.


Devo dizer "Há muitos desempregados em Portugal. 50 por cento está sem trabalho" ou "Há muitos desempregados em Portugal. 50 por cento estão sem trabalho"?

A forma correcta é "50 por cento estão sem trabalho". O predicado "estão" responde ao sujeito "50 por cento" Quer isto dizer que, em cada cem pessoas, há cinquenta que "estão" sem trabalho.


Devo dizer "a maioria das pessoas estão sem trabalho" ou a "maioria das pessoas está sem trabalho"?

Deve dizer-se "A maioria das pessoas está sem trabalho". O sujeito da frase é "a maioria", singular, a forma verbal adequada é a terceira pessoa do singular "está".


Como devo escrever: "o marido faleceu há 15 anos" ou "o marido faleceu à 15 anos"?

A forma correcta é "o marido faleceu há 15 anos", o verbo haver surge aqui com a significação de "existir". Existem 15 anos que o marido faleceu.


É correcto dizer-se "o marido faleceu há 15 anos atrás"?

Não é incorrecto, mas redundante. Se faleceu "há 15 anos" nunca poderia ser "à frente". É a mesma coisa que dizer que "o carro desceu para baixo" ou que "o cão subiu para cima da cama". Basta dizer, "o carro desceu" ou "o cão subiu para a cama".


Deve dizer-se "armas de destruição maciça" ou "armas de destruição massiva"?


"Maciço" é um termo há séculos enraizado na língua portuguesa e que quer dizer "denso", "compacto", ou "em grande quantidade". Neste contexto, "Armas de destruição maciça" são aquelas capazes de causar danos em grande escala. A expressão "Massiva" é um modismo, um neologismo com origem no francês "massif" e no inglês "massive", até há muito pouco tempo não dicionarizada, e que em consequência do uso (incorrecto) foi sendo incorporada, com o mesmo sentido da expressão "maciça".

Ambas as formulações são correctas, sendo que o neologismo "massiva" sugere o significado de uma palavra que já existe com o mesmo sentido que se lhe deseja atribuir.

Optaria por "armas de destruição maciça". O sentido "armas de destruição massiva" pode também ser aceite, embora desnecessário.

Por algum motivo continuamos a optar por "comer de garfo e faca" e não por "comer de garfo e naifa".


Deve dizer-se "o primeiro-ministro português é o político melhor vestido em toda a Europa" ou "o primeiro-ministro português é o político mais bem vestido em toda a Europa?

A forma correcta é "o primeiro-ministro português é o político mais bem vestido em toda a Europa."

"Melhor" utiliza-se como superlativo de "bom". O superlativo de "bem" forma-se em "mais bem".


Deve dizer-se "O Bruno tinha morto a língua portuguesa" ou "O Bruno tinha matado a língua portuguesa"?

A forma correcta é "O Bruno tinha matado a língua portuguesa".

"Matar" é um dos vários verbos que comportam mais do que um particípio. No caso concreto de "matar", apresenta o particípio regular "morto" e o irregular "matado"

Regra geral, o particípio regular ("matado") utiliza-se com o verbo "ter". Os particípios irregulares ("morto) utilizam-se com os verbos "ser" ou "estar".

Ex. "Tinha matado" / "foi morto" / "está morto"

O mesmo acontece com outros verbos. Por exemplo, "aceitar": "O Bruno tinha aceitado o facto de ser burro" e "O Bruno foi [verbo ser] aceite naquele grupo como o bobo da corte".


É correcto dizer "ele interviu para dizer que estava contente"?

Erradíssimo. "Intervir" conjuga-se tal como o verbo "vir". Deve dizer-se "ele interveio". Deve dizer-se "se ele tivesse intervindo" e "se eu interviesse", etc..


Deve dizer-se "Haviam várias hipóteses" ou "Havia várias hipóteses"?

Deve dizer-se: "Havia várias hipóteses".


Se alguém disser, por exemplo, "As pessoas há-dem compreender a minha profunda inteligência", isso é o quê?

É estupidez, claro. Dizer "há-dem" é algo semelhante a idolatrar o Cláudio Ramos. Deve dizer-se sempre, "hão-de" ou "há-de". E não é "há-des", é "hás-de".


Deve dizer-se "Ela emagreceu trezentas gramas" ou "Ela emagreceu trezentos gramas?"

A forma correcta é "Ela emagreceu trezentos gramas". Grama é masculino, tal como quilograma, por exemplo. Um grama, dois gramas, três gramas.


Outro dos erros frequentes consiste na separação de sujeito e predicado através de vírgula. (ex. "O Bruno, prima pela escassez de recursos intelectuais"). Regra geral, sujeito e predicado não se separam por vírgula. Neste caso a frase deveria escrever-se:

"O Bruno prima pela escassez de recursos intelectuais."

7 comentários:

Fernando Coelho disse...

epa, deixa-me dizer-te que tens um timing muito mau para as coisas...

entao agora que os professores andam todos em pe de guerra é que decides ser professor de portugues???

nao podias fazer isso quando as coisas estavam mais calmas???

arre....

provocação disse...

Tu chamas-te....Bruno, né?

Bruno disse...

Provocação,
sim, chamo-me Bruno, os textos estão assinados.
E os exemplos surgem com referência a mim, para que ninguém se sinta atingido.
E é verdade que não primo pelos recursos intelectuais, felizmente tenho a lucidez para o perceber e não tento convencer ninguém do contrário.

Inês Brito disse...

Eh pah, adorei o blogue! Eu estou a considerar a hipotese de seguir Português na faculdade e muito seriamente são estas coisas que me dão mais vontade de o fazer!

Bj,
(i)

Bruno disse...

Fernando,
acho que se os sindicatos de professores direccionassem as suas energias para que as crianças aprendessem bom português, boa matemática, boa História, boas Ciências, talvez o país ficasse a ganhar um bocadinho mais. Penso eu de que...

Bruno disse...

Inês, obrigado pela visita...
A língua portuguesa é uma "entidade" bonita e muito interessante de se aprender e de se estudar. Acho que devemos manter-nos interessados por tudo aquilo que nos rodeia, devemos tentar compreender as coisas. E o português é algo fundamental na nossa vida.
Sobre a ideia de seguir isso na Faculdade, não sei. Não faço ideia como serão os cursos, e o mercado de trabalho nessas áreas está preenchido e tem sido invadido por gente que não pesca nada sobre o assunto.
Sinceramente, e se tivesse de escolher, optaria por algo que desse maiores garantias de um futuro menos truculento, e aproveitaria os anos de faculdade para debicar em vários pratos. No meio dessas viagens, descobrem-se vocações e vai-se enriquecendo o espírito.
Bj.

quase Eu disse...

assim está bem... já mais umas na bagagem.. estou sempre a aprender =)