5.3.10

O vampirismo e as mulheres periódicas

A praga do vampirismo estendeu-se à blogosfera, e o que o pessoal mais quer é sangue e mulheres periódicas. Eu que o diga, que tenho um blogue com uma média de três visitas diárias (eu, o meu cão, e um conhecido e perigoso plagiador da nossa praça) e que, graças a um inocente comentário e a um posterior texto sobre uma guerra de mulheres com TPM, registo agora uma média de 400 visitas diárias.

E tudo isto de um dia para o outro, enquanto o Sócrates esfregava um olho em Moçambique.

Queridos leitores, sinto-me como um pai babado por testemunhar que a minha criança cresceu e se emancipou: a minha expressão "Kitty da Coxa Grossa" ganhou vida própria e já anda nas bocas do mundo.

Oxalá não engasgue ninguém!

4.3.10

O melhor cego

Ao mesmo tempo que meio-mundo se mostra muito preocupado com louboutins, socas de madeira, telemóveis, malas Carolina Herrera, ou com o ângulo da curvatura das sobrancelhas alheias, há quem consiga surpreender e mostrar que é preciso ter a humildade para saber relativizar quaisquer incapacidades ou limitações. Foi o caso de um concorrente ao Festival da Canção da RTP: "Fisicamente, descrevo-me como interessante".

Por vezes é preciso chegar um cego para nos fazer ver que podemos transformar uma aparente derrota numa aparente vitória.

2.3.10

Considerandos sobre Coxa Grossa

Quando aqui me ocorreu apelidar a estimada autora do blogue O Amor é Um Lugar Estranho com o simpático qualificativo de Kitty da Coxa Grossa (KCG) não fazia ideia do tropel que esta imagem causaria entre as desarvoradas almas que consomem o fúcsia na blogosfera portuguesa.

Só durante o dia de ontem, mais de 400 pessoas acercaram-se deste blogue trazidos pela entusiasmante pesquisa “kitty da coxa grossa”.

Quero aqui ressalvar, em minha defesa e em defesa da própria KCG, que este atributo não enferma de qualquer segundo sentido que vise eventualmente depreciar o carácter da CG em questão. Tanto mais que não tenho o prazer de conhecer dita figura, ou sequer me sinto possuidor de uma autoridade que permita tecer considerandos laterais sobre a personagem K.

O epíteto Kitty da Coxa Grossa nasce de uma visão factual da espessura, volume e densidade da região femoral da dita. É uma análise factual ao pernão em causa, baseada nos exemplos abundantemente dados observar no blogue da KCG.

Acompanhei com interesse e bastante satisfação o esforço argumentativo que tem pautado esta acção de guerrilha entre Pipoca e KCG, com avanços de peões e aberturas escocesas disfarçadas de ataques directos à Dama.

Mas não há bela sem senão, ou seja, não há Pipoca sem KCG, já diria a primeira. A discussão ganha foros de irracionalidade quando o argumentário enfraquece e o pulsar do disparate ultrapassa o mínimo da capacidade de raciocínio. Entra-se no género de argumento infantil e sem sustentação à moda do eu fiz e tu não fizesteS, se tu fizesteS eu também posso fazer ou a pilinha do meu pai é maior do que a da tua mãe. Lamentável. Mas divertido, hélas...

Não posso concordar com referências a eventuais problemas de saúde feitas com o intuito de melindrar ou de aviltar posições discordantes, nem me parece aceitável que tal possa servir de argumento para o que quer que seja, positivo ou negativo, da parte da KCG ou dos seus detractores.

“E há quem decida achincalhar os outros gratuitamente (criando guerras que nunca existiram) em praça pública, recorrendo a todas as armas. Incluam elas troçar do aspecto físico dos outros, assim à laia de crianças quando faltam argumentos para justificar tamanhos actos (caixa de óculos, gordo, feio, dentolas)” (Kitty, in O Amor é Um Lugar Estranho)

Não sei se nesta crítica da KCG se incluem as reflexões e os comentários jocosos tecidos pela própria a propósito das gengivas inflamadas que se avistam nas fotos pré-orgásticas de Clara Pinto Correia.

Não sei se é de sentir nojo, raiva ou pena. O que reconheço é que todos têm telhados de vidro. E que todos insistem em lançar pedras contra telhados alheios, mas poucos estão disponíveis para dar o telhado às pedras.

Este texto só acontece aqui dada a impossibilidade de partilhar a análise no espaço onde ela deveria ser feita, porque lá, no blogue da Kitty da Coxa Grossa, apenas são admitidas opiniões de sentido único, condizente com os da Miss Botifarra do Fórum Almada.

Parafraseando outra alma lusa do hermeneutismo português, expressão que não podia ser mais adequada à situação vertente: "a boca morre pelo peixe".

Homicídio em directo na TV (video)

Este vídeo ilustra o que se escreveu aqui: um crime de lesa-cultura. Atente-se em 1:35



1.3.10

Kitty da coxa grossa

Muita gente por cá tem passado à procura de detalhes sobre a figura da Kitty da Coxa Grossa, à qual aludi no post anterior. Para quem queira aprofundar o assunto, posso garantir que vieram parar ao sítio certo. A KCG de quem se fala é uma das personagens principais de uma novela que fez furor na blogosfera, acessível em vários textos deste blogue, compilados num livrinho catita que agora vos é oferecido. Meninas, meninos, fehrs e cláudios ramos: divirtam-se!

Pipoca versus Kitty

Ora, se as minhas referências sobre a cultura popular permanecem actualizadas, quando aqui se fala em alisamento de cabelo, padrão Burberry "Dona Dolores Style", Almada Fórum e Unhas de Gel, só se pode estar a falar da Kitty da coxa grossa, é o único resultado que o meu software inovador desvenda quando inseridas estas referências em simultâneo. No entanto, acho que não é justo dizer-se que há bloggers a quem andam a rebentar fusíveis, na medida em que muitos nunca os tiveram e mantêm um muito clássico, porém vagaroso, funcionamento a válvulas.

O Arlequim das Cantiguinhas

Ele tem o toque de Midas. Depois de ter escavacado sem contemplações uma música antológica de Ornatos Violeta, desta vez tratou de assassinar com requintes de malvadez outra composição inatingível, "Espalhem a notícia", de Sérgio Godinho. O mal seria menor, não fosse o ar estupefacto do autor da música, com quem era feito o dueto, e do Presidente da República, na primeira fila do Coliseu, à procura de um sítio onde esconder a cremalheira, para não se desmanchar a rir.

Ele chama-se Filipe Pinto e foi eleito o Ídolo de Portugal. A avaliar pelas amostras e pela postura rígida em palco, de quem parece que viu enfiada uma vassoura pelo rabo acima, o Eddie Vedder da Asprela não vai mais longe do que até ali ao virar da esquina. Até a eléctrica Diana ou até o proto-gay Carlos se safaram melhor no espectáculo desta noite, de solidariedade para com as vítimas do temporal na Madeira.

23.12.09

Feliz Navidad, diz ele em grego

A partir de agora, Cristiano Ronaldo deixa de ser o melhor do mundo, para ser o melhor europeu do mundo.

16.12.09

Descubra as diferenças...



Um filipino... Um português... Porque, afinal, até foi um português que descobriu as Filipinas...

Avatar em 3D

Fui assistir à antestreia do novo filme de James Cameron, deram-me para as mãos um par de óculos que me puseram com um aspecto que mais parecia o Roy Orbison e lançaram-me para dentro do universo da estereoscopia cinematográfica. Dizem eles que isto é o futuro, que a partir de agora vai ser sempre assim. Dizem eles que este filme estará para o cinema como o Magalhães esteve para o sistema de ensino português, seja lá o que for. Não, eles não dizem isso. Eles nem sabem o que é o Magalhães.

Depois de quase três horas de nariz para o ar a ver figuras e objectos serem disparados na direcção dos meus braços, diria que a fórmula se esgota em alguns aspectos primordiais: os truques de Cameron para criar a ilusão de profundidade são repetitivos; assistir a um filme 3D numa tela de cinema de dimensões limitadas à parede frontal da sala é a mesma coisa que ouvir uma sinfonia de Beethoven tocar num rádio de loja chinesa.

Quanto ao resto: o enredo é uma fábula relativamente fraca.

13.12.09

Benfica e o génio de Jorge Jesus

O Benfica joga, o Benfica goleia, mas no meio do tango dançado a compasso pressente-se um volteio de tragédia: para Jesus, o título nacional é cada vez mais uma miragem.

O Benfica arrisca passar o Natal no terceiro lugar do campeonato, atrás de Sporting de Braga e Futebol Clube do Porto. Muitos serão levados a questionar que motivos profundamente irracionais levam o adepto benfiquista (aquele adepto tão dado a viajar entre estados de fúria e momentos de êxtase), desde uma fase tão precoce da temporada, a manifestar uma histeria tão desmedida e um elogio unânime e inquestionável ao cavalo branco, Jorge Jesus. Estranho a euforia que reina nas hostes encarnadas e os epítetos com que a visão acrítica da imprensa desportiva cataloga o desempenho dos jogadores do Benfica nesta edição da liga.

Na próxima jornada o Futebol Clube do Porto visita Lisboa. Uma vitória dos azuis empurra o clube do milhafre para o lugar mais baixo do pódio. Se nos lembrarmos que na época passada o Benfica conquistou o título fátuo de campeão de Inverno – uma evolução daquilo que tinha sido nas épocas anteriores o abono familiar do museu encarnado, a recorrente conquista do título de campeão do defeso –, é lícito concluir que, em período homólogo, a performance do mal-amado Quique Flores quedou-se uns valentes furos acima do desempenho, para já vago, do idolatrado Jorge Jesus. Na última temporada, Quique Flores chegou ao final da primeira volta em primeiro lugar; este ano, Jorge Jesus arrisca-se a ultrapassar a metade da época numa pouco prestigiante e frustrante terceira posição.

Não há que enganar: se um se destaca pelo intenso esbracejar, por mascar maços inteiros de pastilhas super-gorila de uma forma quasi desbragada, já o espanhol, senhor de patilha grossa e filho de boas famílias, distinguia-se pelo porte fleumático, que em Portugal o terá levado a conquistar uma Taça da Liga com o peito, e uma Orsi com um par deles.

A fauna benfiquista está em alerta, mas, passe o que passar, a tribo dos pastilhas já conquistou o seu campeonato, e Jorge Jesus um lugar na História. Se o Futebol Clube do Porto vencer no próximo fim-de-semana no Estádio da Luz, todos têm razões para ficar contentes. O FC Porto porque arrisca ser líder, o Sporting de Braga porque pode manter-se em segundo lugar lutando por uma posição de acesso à Liga dos Campeões, o Benfica porque o terceiro lugar é um dos primeiros da fila e a equipa está a jogar um futebol brilhante à Mister Jesus... e o Sporting porque se mantém acima da linha de água.

Há fenómenos que eu não entendo. E um deles é este, o de encomendar com esta antecedência as faixas de campeão, mesmo antes sequer do meio da temporada.

Nota final: das bancadas do Estádio do Dragão, os petizes gritam para dentro do relvado, chamam pelos ídolos, chamam pelo Hulka!

(para quem não gostou nada do que leu neste texto, pode sempre espreitar este outro em que me entretive a escrever apenas maravilhas sobre o Benfica.)

11.12.09

O olhar das palavras

A beleza das minhas palavras confunde-se com a estranheza dos teus olhos. Nem sempre é assim. Quantas vezes sou levado a reconhecer a estranheza das minhas palavras e me despisto na beleza dos teus olhos?

Catching the big fish

“As ideias são como o peixe. Se queres apanhar o peixe miúdo, basta permanecer próximo da superfície. Mas se queres apanhar peixe graúdo, então precisas mesmo de mergulhar em águas profundas.”

in Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity de David Lynch


Hoje estou em apneia...

10.12.09

Jorge Colombo, arte na ponta dos dedos

aqui tinha deixado uma referência ao mérito do artista português Jorge Colombo, autor de diversas capas e outros trabalhos para a revista New Yorker. O reconhecimento vem agora da parte de outra publicação norte-americana. A prestigiada Time distingue a capa de Junho da New Yorker como a segunda melhor de 2009. Parabéns!

2.12.09

O prefácio do proémio

Excerto do texto introdutório do livro O Grande Primo, a primeira novela da blogosfera real. O download deste ebook pode ser feito gratuitamente aqui.

«A ideia do proémio, confesso-o, mantive-a até ao derradeiro instante no rascunho que deu vida a esta espécie de pecado original. Era o que melhor me soava, havia nele algo que lhe conferia proximidade humana: Noémio, o boémio. Mas a proposta, que eu julgava um recurso final irrefutável, acabou por ser alvo da rejeição do meu editor, por ausência, dizia-me, de fôlego comercial:

“Um gajo abre o livro nesta página, lê o cabeçalho da tua introdução, fica a rir-se de ti e prefere ir ler os plágios dos outros”, concluía o homem, franzindo o sobrolho e mascando uma chicla, enquanto pegava noutro dos muitos manuscritos que diariamente aterravam na sua mesa de trabalho:

“Coma”, disse-me ele.

“Não tenho fome”, respondi.

“Nada disso: Coma, o próximo grande sucesso mundial, depois de 2666”, explicou-me, apontando o dedo para o nome do autor daquele esboço de obra-prima: Abrunho Plagiehr, o temível auto-intitulado Escritor da Wikipedia

1.12.09

Verdades e consequências

Aprendemos a acreditar nas pessoas, mesmo reconhecendo que todas escorregam no engodo da falta de verdade quando se lhes escapa a mão.

Não sei se tu és, mas eu não cultivo esse hábito. Não tenho o costume de fugir à verdade. Tenho com ela uma relação estimada, muito próxima, quase carnal. Somos amantes inseparáveis, acicatamos frequentes burburinhos sexuais mútuos, somos a carne de um e a unha do outro, e só nos chateamos quando eu preciso mesmo dela e ela me foge numa criminosa isenção de auxílio à vítima. Com a outra, não me dou nada bem. É uma amante desprezível, com a qual não consigo fomentar qualquer outro sentimento que não o de repulsa, a resvalar para os compartimentos do ódio. A verdade é doce. A irmã é acre. Infelizmente, provo-a com a certeza de que deveria estar imune aos receios que ela me traz.

25.11.09

Não poderia estar mais de acordo...

... ou talvez pudesse. Mas o que li chega para me levar a assinar por baixo.

A Onda do Blogueiro Marionete

23.11.09

A Ministra da Educação e os megabytes

Poderá ter sido uma tentativa de humor frustrada, ou uma inocente assumpção de ignorância quanto às novas tecnologias. O que cada vez mais percebo é que existem matérias sobre as quais um político não deve correr o risco de gracejar. Porque, inevitavelmente, ou sai asneira ou resvala para o ridículo.

"Entre o 5º e o 12º ano foi garantida a ligação banda-larga, alta velocidade, pelo menos 64 Megabytes... francamente, não percebo muito do que é isto... mas sei que é bom" (risos na sala)

Isabel Alçada, Ministra da Edudação



Se por um lado foi ridículo confessar que não entendia nada do assunto, por outro lado a ressalva fê-la escapar ao ridículo ainda maior que seria confundir 64 Megabits por segundo com 64 Megabytes por segundo. É que, na verdade, a ministra deveria ter-se referido a Megabits e não Megabytes (como erradamente o fez), mas como assumiu que não entendia nada do assunto acaba até por não ser tão grave.

Ridículo por ridículo, mais vale vender o peixe e dizer que é bom, mesmo deixando claro que não se percebe absolutamente nada do que se está a vender.

22.11.09

Massive Attack em grande no Campo Pequeno





















Era um dos concertos mais aguardados do ano. E não defraudou. Os Massive Attack estiveram em grande. Novos temas, novo álbum (depois de 7 anos sem gravar, Hell-Ego Land sai em Fevereiro). E não me lembro de ter visto um espectáculo deste género com uma componente cénica e de iluminação tão surpreendentes. Esta espécie de trip-hop de intervenção dos Massive Attack volta hoje, domingo, ao Campo Pequeno. Quem não viu, aproveite...




(foto e vídeo retirados da página dos Massive Attack)

21.11.09

Orquestra de peidos

«A mensagem publicitária consiste na exibição de um pequeno filme de banda desenhada, cujo mote principal são vários traseiros que flatulam livremente. Para ilustrar a flatulência, nuvens de gases saem dos traseiros, acompanhadas de sons associados a flatos e sons de instrumentos de orquestra. Alguns traseiros surgem também a “tocar” clarinetes e trompetes.

Numa caixa de texto no centro do ecrã lê-se: “PEIDOS”, enquanto na lateral esquerda do ecrã encontra-se uma representação figurativa (animada) de um telemóvel que expõe o número ****. Na parte superior do ecrã exibe-se o seguinte texto (animado): “**** *********”. O narrador (timbre de voz infantil), em voz off, anuncia o serviço: “Já ouviste a orquestra dos peidos? Vais pôr toda a gente a rir! Pede já e tens mais todas as semanas. Envia peidos para o…”»

Excerto da deliberação do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre o anúncio publicitário a Orquestra de Peidos, que gerou a indignação de pelo menos 4 pessoas atentas e preocupadas, por entenderem que na televisão portuguesa não se pode falar nem de peidos, nem de traques ou bufas, não ficando claro se admitem a abordagem pela perspectiva mais distante da gíria e mais próxima do registo familiar, com recurso por exemplo à expressão digna e casta pum, uma abordagem vicentina que como é sabido não ofende ninguém.

O chofehr que nos conduz até Jinga

10.11.09

Por Tudo e Pornada declara-se em fase Jinga

Todos os detalhes, para escutar neste anúncio da gerência:

A sustentar calinadas no 24 Horas há mais de 1300 euros

É sempre com um enorme prazer e uma não menor expectativa que chego ao meu posto de trabalho na segunda-feira de manhã e me lanço sobre a edição do jornal 24 horas. Ele determinará o que posso ou não esperar da minha semana.

Se a edição de segunda-feira alcançar o nível desejado, então a minha semana será elevada aos píncaros da espectacularidade. Se estiver mal concebida, mal enjorcada, fechada à pressa e pejada de equívocos e de fotografias de agência ou de festas com personagens-que-ninguém-conhece-só-para-encher-papel, então a minha semana vai com toda a certeza ser uma merda.

E esta segunda-feira não fugiu à regra. Cheguei ao local de trabalho, descalcei os chanatos e pus os pezinhos ao fresco dentro de duas socas Birkenstock.

Folheei então com agrado as páginas iniciais do pasquim-vinte-e-quatro-horino... aquela história fantástica do Jorge Jesus ao lado do Cróife, desenterrada do cemitério das histórias ocultas do futebol português, nem o Stóitjecóve se lembrava da personalidade fulgurante do nosso JJ. Só acho relativamente abusivo dizer que aquele estágio em Barcelona transformou a carreira do Jorge Jesus. Isso não é factual, e acho que o jornalismo deve guiar-se pela busca do que é concreto, mas isto sou eu que digo, que nada entendo dessa profissão de artistas bem pagos e com vidas de glamour e ostentação.

Bem me esforcei, mas o dia não estava para grandes leituras. Até porque logo na primeira página fui tocado pela comoção, depois de ter lido a frase do Rogério Samora, acerca da morte da avó no mesmo dia em que ele completou 50 anos, quando diz: "Se não fosse ela, talvez eu não tivesse nascido". Se não fosse a avó dele, o RS não teria nascido. E se o Rogério Samora tivesse rodas... seria um segway. E isto sim é factual.

Era este o cenário que estava traçado para a minha manhã quando tentei mergulhar a fundo nas primeiras páginas do 24 Horas.

E devo confessar que fiquei ainda mais confuso quando, na página 28, choquei de frente com um texto sobre os "humoristas" do Telerural. Eles queixam-se do provedor do telespectador da RTP.

Até aí tudo bem, até os humoristas do Telerural têm o direito a manifestar-se num jornal de referência como o 24 Horas. O 24 Horas não pode ser apenas um repositório de notícias sérias ou de aprofundadas análises sobre a conjuntura económica internacional, nem pode ser apenas um palco de extensas dissertações sobre o universo cultural de elite da RTP2. É preciso alargar o espectro e saber chegar a todos os públicos.

É por isso legítimo questionar o subtítulo desse texto, que revela que os guionistas do referido programa estariam descontentes com o Provedor do Telespectador, espaço conduzido por um "paquete". Tentei perceber se estariam a falar de um "paquete", um navio de grandes dimensões, que circula entre as Caraíbas, o Mediterrâneo, e o arquipélago da Madeira... ou se o "paquete" que conduz o tal programa do Provedor seria um "paquete" daqueles que distribuem encomendas ou são pagos à jorna para fazerem recados. Uma espécie de Bruno Fehr mas com miolos na caixa encefálica em vez de titica de galinha ou de laudas de referências googlianas amarfanhadas em bolas de papel. Consegui perceber que o "paquete" a que se refere a notícia é o paquete do Oliveira, o que me deixou na mesma. Verifiquem lá isso, e depois digam-me quem ou o que é o tal paquete, para eu tentar entender o que se passa.





























Mas mais perturbado fiquei quando saltei para a chamada zona VIP... Aquela em que surgem as pessoas ditas bonitas, espectaculares, as pessoas "tásse" (de tásseachandoumagrandemerda). No canto superior esquerdo da página 38 aparece a fotografia mais enigmática de toda a edição do 24 Horas: o garboso jornalista da TVI, Sousa Martins (não confundir com aquele que comunica directamente com a Pomba Gira Linda Reis, e que tem direito a estátua no Campo de Santana, junto à Faculdade de Medicina), acompanhado de alguém do sexo masculino com aparência bastante "alternativa"...

A legenda mostra um enigmático "O jornalista da TVI, Sousa Martins, foi com a namorada Marta Wahnon ao aniversário do Joalheiro Gil de Sousa".
























Não acham a legenda só um bocadinho desadequada? Onde está a Marta Wahnon? Será esta personagem que está agarradinha ao Sousa Martins? Estará no bolso deste homem que, entre outras coisas, faz também broches? Não percebo, sinceramente.

É que dar 75 cêntimos todos os dias para ficar neste estado de confusão está a sair-me caro: por mês são 22 euros e meio, o que perfaz ao longo de um ano 270 euros, o que ao longo de cinco anos dá mais de 1300 euros. Meus amigos, eu não ganho para sustentar as vossas notícias que deixam por esclarecer aspectos fundamentais da vivência humana e que determinam o karma de uma semana de trabalho, e não esperem que vos mande levar no "paquete", amanhã estarei de novo com mais 75 cêntimos a voarem da carteira à espera de novas surpresas, novos karmas, novas viagens.

5.11.09

Jorge Jesus, Rui Santos e o picaretismo falante

É a primeira vez que vejo um treinador sentado no banco com um cachecol do próprio clube ao pescoço. O Jorge Jesus arrisca-se a cair no ridículo, e pelo andar da carruagem o Benfica arrisca qualquer dia ter o Barbas no banco a dar instruções.

Quando ao Rui Santos, fica provado que se esqueceram de ensinar o senhor que a grande virtude (virtualidade, como ele diz) de um comentador de jogos de futebol é saber ficar calado. Assistir a um jogo de futebol com uma picareta falante constantemente a martelar nos ouvidos é, deixam-me que vos diga, uma tortura. Suplico por alguns segundos de silêncio. Apenas isso... Porra!

4.11.09

Não há coincidências

Os meus olhos viraram-se para uma das prateleiras cá de casa onde estão arrumados alguns livros – grandes, pequenos, altos, baixos, magros, gordos. Sem se fixarem em nenhum atributo em particular, viajaram pelas lombadas daqueles edifícios moribundos como dedos que escorregam felizes pelas oitavas de um teclado de piano.

Agarrei ao acaso no Até Onde Se Pode Ir?, do escritor britânico David Lodge, romance que nos transporta até à epopeia de um grupo de jovens durante a época da libertação sexual na Grã-Bretanha, acompanhando as dores de crescimento de uma geração atormentada por fantasmas do passado e assustada com os desafios de futuro. Abri o livro, folheei-o, e recuperei à memória a sensação da leitura original.

Na primeira página, uma anotação pessoal e a data da aquisição do livro: 3 de Novembro de 1998. Precisamente onze anos haviam passado. E ao folhear Até Onde Se Pode Ir?, também eu recuei àquele tempo, acossado pelos fantasmas do passado, e lá chegado, assombrado pelos desafios deste futuro que já se cumpriu.

Comprar um livro, concordem ou não, é um acto de paixão. A afecção conduz à ilusão do sentimento, que pode desfazer-se ou agudizar-se nas voltas do texto. Os livros acompanham-nos em silêncio, e embora muitas vezes possamos não ter sequer tempo para eles, ali permanecem sempre disponíveis, como frutos a pender da árvore, à espera para serem colhidos, digeridos. São, de facto, os nossos melhores amigos.

Pipoca e língua: duas impossibilidades teorico-práticas

Existem poucas coisas mais incomodativas do que comer pipocas doces e ficar com um valente pedaço de casca de milho colado numa zona inacessível da língua.