
29 de Fevereiro - Dia Europeu Sem Augusto Santos Silva






À primeira vista não conseguia encontrar relação entre o amor que sentira por Londres quando a conhecera pela primeira vez, e o amor que deixara em Lisboa, quando dela se despedira na colina dos aflitos, por entre lágrimas de crocodilo, a mirar o Tejo e a deitar contas aos tostões da vida. Reconhecia bem serem amores diversos, daqueles que não se explicam e nem se anulam, antes se completam e fazem pensar várias vezes antes de enfrentar uma ribanceira de decisões difíceis. Fê-lo sem olhar para trás. Juntara-se aos milhões de forasteiros daquela urbe cinzenta ia para três anos. Uma casa em Ladbroke Grove, com renda paga a meias com outra estrangeira. Todos os dias, enfrentava a rua com um umbrella recolhido na bolsa. Recebia o primeiro jornal da manhã das mãos de um desconhecido de rosto afunilado dentro de um gorro quente, e continuava sem pressas a fruir a salgalhada de vozes que exercitavam récitas perras em busca do sotaque mais cumpridor. O seu rosto contempla e triunfa. Divertia-se com os canalhas que açambarcavam carteiras no metro. Reconhecia-lhes tiques e frustrações. À noite voltava a Ladbroke Grove, invocava pressas e deixava-se cair na cama à procura das memórias que lançara pela janela quando se deportou de Lisboa e por lá deixou um pedaço de vida. Guiara os sentidos para um prato de frango "peri-peri" quando por uma vez decidiu experimentar o Nando's, cujo "bom proveito" que a seguia por todos os recantos do estabelecimento não a remetia para Portugalzíssimo nenhum. Desencontrou-se dos sabores do país naquelas asas de frango, e decidiu-se a experimentar um outro restaurante em Stockwell Road, onde os sotaques lusos eram bem mais aprimorados, e cujos condimentos de portugalidade a levaram por momentos a recuperar os encantos do país. Mas ali não regressou por não se rever naqueles homens e mulheres anacrónicos, a viver da herança de um Portugal que deixara já de existir. E passou a parar num pub italiano, onde reencontrava colegas de investigação, onde voltava a ganhar vida o bico de Bunsen, e se recuperavam as conversas sobre balões, condensadores, e tubos de ensaio. Mas pelo menos uma vez todos os dias, o metropolitano voltava a conduzi-la às reminiscências da Lisboa de sempre. Até ao momento em que uma voz a advertia: "mind the gap"...
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira.
(A Felicidade, Vinicius de Moraes / Antônio Carlos Jobim)

RICKY
Marco Ribeiro, propunha precisamente que partíssemos então para essa discussão. Como deve ser então esse bico, esse broche bem feito? Esse felatio. Aliás, Marco Ribeiro, tu já terás experiência disso, de receberes o belo do bico de José Manuel Santiago, ele que ficou até com marcas, ao ponto de ter levado pontos na testa, pela violência do esguicho...
MARCO RIBEIRO
De facto, ele ainda hoje usa óculos devido à corrosibilidade do meu esperma.
RICKY
Exactamente, ele que ficou desde então com um problema na vista. José Manuel Santiago, tu que és então o especialista nessa bela arte do bom bico, do bom beijinho, explica-nos então como deve ser feito, que cuidados ter com os lábios, que cuidados ter com a pele - aliás, tu não precisas, precisamente por causa desses cremes naturais que usas...
MARCO RIBEIRO
Ao contrário da Cleópatra, que toma banho em leite de burra, ele toma banho em leite de burro.
RICKY
Burro, cavalo, égua, e tudo o mais.
Santiago, explica-nos então como é essa arte do bico.
JOSÉ MANUEL SANTIAGO
Acho que uma boa brochada deve começar pelo treino, desde pequeno. Eu comecei a pegar em canetas e metê-las na boca, a fingir que era um pénis. Começa por aí.
RICKY
A caneta que é um objecto fininho, e que não custa logo no início, não traz aquela dificuldade. Mas depois é preciso ir engrossando.
JOSÉ MANUEL SANTIAGO
É verdade. É preciso ir engrossando. Caneta, depois passas por um martelo, até que acabas no pénis, não é verdade...
O segredo de uma boa brochada começa por uma boca flexível, que consiga abocanhar o dobro da tua capacidade oral.
RICKY
É importante referir que os lábios devem estar bem oleados, aliás, deve existir humidade no lábio, para que o belo do bico resulte na sua plenitude.
JOSÉ MANUEL SANTIAGO
Isso e também uma coisa muito importante, que é ter um bom hálito. Está comprovado cientificamente que quando abres a boca soltas um vapor e esse vapor se for muito muito forte e desagradável é capaz de fazer murchar o mais forte dos pénis. Portanto, convém ter um bom hálito antes de fazer uma mamada a alguém, convém tomar uma pastilhinha de bom hálito, por exemplo com sabor a mentol. É preciso é flexibilidade. Existem mesmo tribos africanas em que a mulher consegue abocanhar tanto o pénis como um dos testículos.
RICKY
Importante também referir, Santiago, que é importante ter uma úvula flexível, ajuda bastante. Até porque aqueles que gostam de aprofundar o assunto precisam de encontrar uma úvula bastante flexível.
Já vamos voltar a falar dessa arte de como bem abocanhar, para isso temos aqui em estúdio uma especialista, a Madame Débora, que dentro de momentos vai falar e até exemplificar na prática como se faz o bom do boquete.
INTERLÚDIO MUSICAL

"Um homem nasce num comboio, numa carruagem de segunda. É amamentado com o leite proveniente das diversas estações em que o comboio pára. O homem cresce, aprende as coisas triviais, ainda que necessárias, que o amarram à realidade concreta, mas nunca abandona o comboio. Vive uma existência tranquila sem fazer outra coisa senão olhar pela janela, até que o bichinho do amor começa a cavar a sua toca entre a pele e a camisa dele. O homem descobre então que possui um dom desconhecido. Pode evitar qualquer espécie de complicação existencial pelo mero facto de se apear na estação seguinte e tomar o comboio em sentido inverso. Pode repetir esse ardil salvador sempre que quiser, quando a mínima dificuldade ameaçar transtornar a sua tranquila vida de passageiro."
MARCO RIBEIRO
Enquanto ela se delicia com este meu espantoso margalho, gostaria de dizer que encontrei esta minha velha amiga, que não é assim tão velha, não é assim tão velha como a senhora do Moulin Rouge, encontrei-a ali na casa de banho, estava eu a preparar-me para fazer umas necessidades urinárias, quando a encontrei, estava ela a procurar um brinco, e eis que eu vou para tirar a pila para mijar e lhe acerto num olho...
Ela pediu-me imediatamente desculpa, por ter o olho no caminho da minha pila, e deu-lhe beijinhos, para ela não ficar triste.
É uma velha amiga minha, além de ser uma especialista no broche, é muito boa e muito competente e uma enorme fã do sexo sado-masoquista.
RICKY
Marco Ribeiro, eu perguntava-te então: Quem é ela?
MARCO RIBEIRO
É a Marie Margarite, mais conhecida por Madame Débora, ou Miss Chinquilha, a mestre da ameijoa e do chicote.
RICKY
Boa noite, Madame Débora!
MADAME DÉBORA
Boa noite!
RICKY
Como é que está a sua boquinha, hoje?
PAUSA
RICKY
Lá está, ela está bastante ocupada, nesta altura com os 73 centímetros de bacamarte de Marco Ribeiro. Recordo que José Manuel Santiago tem apenas 33 centímetros, e eu tenho metro e trinta e dois de pau, e quem quiser comprovar que venha aqui ao estúdio.
Consta, Madame Débora, que a sua boca serve de fita métrica, é verdade?
MADAME DÉBORA
Apesar de ter um boquinha muito pequena, toda a gente gosta. Nunca ninguém se queixou. Uma pessoa tem de saber sugar a essência.
RICKY
Sugar a essência. Geralmente é no fim que se suga, não é?
MADAME DÉBORA
É!
RICKY
E costuma engolir?
MADAME DÉBORA
Claro que sim! Para ficar bem alimentada!
Além disso, porque está provado que se as mulheres praticarem sexo oral pelo menos duas vezes por semana diminuem o risco de problemas de pele...


