28.2.09

29 de Fevereiro








29 de Fevereiro - Dia Europeu Sem Augusto Santos Silva

27.2.09

A política portuguesa e os restaurantes chineses












Conhecer por dentro o funcionamento dos partidos políticos é um pouco como conhecer o que vai por dentro da cozinha de um restaurante chinês. Depois de sabermos o que por lá anda, nunca mais temos vontade de comer chop suey de vaca. E depois de sabermos como funciona a mentalidade de quem anda por dentro dos partidos, também sentimos vontade de nunca mais pôr a cruzinha em nenhum, e sobra a vontade de ir lá desenhar um pirilau no boletim de voto.

Sócrates e os blogues

José Sócrates acusa (entre outros) os blogueiros de participarem na campanha negra contra ele. Os poderes ocultos, anónimos e cobardes. Somos mesmo mal agradecidos. O Sócrates trata-nos tão bem, e nós respondemos nesta moeda... Alguém enfia a carapuça?


(Eu acho que ele anda a ler a blogosfera e a deixar comentários anónimos em resposta aos anónimos posts e comentários sobre ele.)

Os Grandes Timoneiros Autárquicos (GTA)












Hoje chegou à caixa do correio cá a casa o pasquim autárquico. É normal, de quando em vez, os serviços da Câmara porem-nos a par do "excelente" trabalho que desenvolvem. Assim, é percorrer página atrás de página em contemplação pela obra feita. Se alguém julgava que Mao abusava da omnipresença em todo o recanto da república popular que fundou na China; se alguém julgava que Hafez Assad abusava da omnipresença em todos os souks na República Árabe da Síria; ou se alguém julgava que Saddam ou Kim Jong Il abusavam... que folheiem um qualquer boletim municipal. Neste que me chegou a casa, a figura do presidente da autarquia surge de cremalheira arreganhada em mais de metade das páginas. O que não é muito, atendendo a que, aqui bem perto, um antigo dinossauro autárquico, agora desaparecido político, costumava aparecer em percentagem bem mais elevada, e difícil se tornava encontrar página na qual o frontespício de tal figura não dominasse.

26.2.09

O meu táxi de hoje

Nem tinha dado por ela, já íamos na Gago Coutinho e estavam a bater os traços sonoros da hora certa. Taxista que se preze leva o rádio sintonizado na Renascença, no Rádio Clube, ou na M80. Fazem-se acompanhar por radialistas encartados, de vozes delicodoces, que durante tardes a fio, sem o saberem, afundam anos de carreira, desautorizados pelos tons estridentes das meninas da RETÁLIS, a porfiar por um táxi à Praça da Alegria, e por outro ao Colégio Manuel Bernardes, espera o Menino João, a crédito. Andar de táxi em Lisboa é uma aventura que nos leva a reequacionar a premência das teorias construtivistas. Um mundo paralelo banqueteia-se a bordo de estofos e tablier de um Mercedes 190D de 1988. E nesse mundo tudo é perfeito. Tudo bate certo. Tudo anda sobre quatro rodas. Mesmo quando o aço húmido desafia o universo e contra as leis da relatividade quer conquistar um espaço de alcatrão maior do que deve. Não é incomum sentir-me um alienígena dentro de um táxi, com a pressa de chegar ao destino para o meu passeio espacial. Hoje senti-me um pouco mais: como reagir quando deixamos a nossa vida nas mãos destes diletantes da verbena automobilística e o senhor das notícias na rádio nos presenteia com histórias como esta? Talvez assobiar para o lado. Foi o que fiz.

E afinal não há crise nenhuma (a culpa é dos outros)










Estava a ouvir com atenção o Ministro Augusto Santos Silva, na SIC Notícias, a fazer o balanço dos quatro anos de governação socialista, e estava a tentar não soltar nenhuma expressão facial que denunciasse a aversão que tenho ao discurso e à postura deste senhor político. Não fosse alguém estar a observar-me sem eu saber e denunciar-me a alguém, que por sua vez se encarregaria de me denunciar a outro qualquer. Este é o homem que se instituiu como o paladino das liberdades, direitos e garantias e que um dia proferiu o pensamento de antologia: "é preciso malhar na direita".

O suplemento Inimigo Público de hoje chama a esta figura: o convidado que mais vezes participou no Prós e Contras, mais até do que a própria Fátima Campos Ferreira. E é verdade. Este senhor está sempre lá batido. Sempre a malhar...

TVI24







Começou a TVI24.

Notícias, irreverência, a tragédia, o drama, o horror. Em duas palavras: san gue, que em japonês quer dizer qualquer coisa como: "despachei o Pina Moura, [o português mais japonês de Portugal] e já ninguém me consegue tirar daqui". Pina Moura agora já só saca dinheiro à Media Capital como comentador do canal.

Como seria de esperar, a TVI24 começa com uma sessão de masturbação colectiva: Henrique Garcia passa a bola a José Eduardo Moniz e dissertam sobre os desafios e as virtudes do novo canal. O açoriano diz que a informação será: "séria e independente". Rostos novos resgatados à RTP, e um cenário virtual: uma mesa tão branca que fere os olhos, e o fundo virtual a começar como o próprio canal, aos tremeliques.

O sítio do canal na internet não é mau de todo, mas também não seria difícil fazer melhor do que a pobreza franciscana que é oferecida na página do canal-mãe.

O resto já se sabe: é o rigor, a credibilidade, e a sobriedade da informação com a marca TVI.

Food for Thoughts

Pelo canal de rádio que escuto habitualmente durante a noite, passa quase sempre à mesma hora o génio esquecido de Astor Piazzolla.

E hoje foi uma das composições que adoro: Los Sueños



Procurem também Buenos Aires Hora Cero, vale a pena...

25.2.09

Remízio Melhorado vs Avelino Ferreira Torres











Há quem diga que são uma e a mesma pessoa. E há quem diga que um é procurador do Ministério Público e outro foi autarca do Marco de Canaveses. Seja como for, dariam uma novela venezuelana, daquelas em que o galo de Barcelos surge como bibelô em todas as cenas. De um lado Avelino Ferreira Torres, o homem capaz de resolver os assuntos à maneira antiga e de pontapear os utensílios do árbitro durante um jogo de futebol. Não tem papas na língua, é do tipo "deslarguem-me, que eu vou-me a ele!" Cultiva o culto da personalidade às direitas. É uma espécie de Mao Tse-Tung à minhota.
...
Remízio Melhorado dispensa apresentações. O nome diz tudo. É procurador do Ministério Público, e proferiu hoje as alegações finais no processo contra Avelino. Pediu pena de prisão para o ex-autarca. Entre outros crimes, o de corrupção e abuso de poder. Pode dizer-se que os tem no sítio. Mas se não tiver cuidado, pode deixar de os ter.
...
Por via das dúvidas, Avelino já veio dizer que Melhorado é mentiroso, e que vai ter de provar o que diz, até porque Avelino não é da família dele.
...
Este tipo de personagens gosta de meter ao barulho conceitos como família, honra, palavra. Públicas virtudes que tantas vezes escondem e ocultam vícios privados. Pois eu tenho cá para mim que Remízio, Avelino e Melhorado são uma e a mesma pessoa... E que até a Carmen Miranda não fica isenta nisto.

Debate do croquete

"Doze Deize Ar Ouvâr"

Acabaram-se os tempos das inaugurações dos quinhentinhos. Quinhentos mil euros para o rissol e o croquete nas inaugurações de novas estradas. O Governo inaugura, as concessionárias das autoestradas chegam à frente e assinam o cheque. A propaganda fica feita. Em última instância sobra para o utente.

A frase em epígrafe pertence ao líder da bancada parlamentar do PSD, e é a representação fonética mais aproximada do sotaque de Paulo Rangel, ele também um grande especialista na técnica do inglês, mas que mesmo assim fica aquém dos calcanhares do inglês técnico, esse sim, um must do bom argumentário republicano.

Para quem está com os azeites


















Azeite Galo
: a crismar desde 1860

À atenção dos mais vi(r)ciados

À consideração daqueles que ocupam parte do seu tempo neste mundo paralelo e que por muito que tentem não conseguem dele libertar-se. Um estudo revela que os jovens que indiciam sintomas de vício no acesso à Internet, que por cá passam horas e mais horas e não encontram vida para mais nada, são mais propensos a comportamentos violentos e agressivos.

Digamos que eu já tinha uma certa desconfiança.

[A notícia pode ser conferida aqui... e o estudo publicado no Journal of Adolescent Health está disponível aqui (com registo).]

24.2.09

Um mundo com vista para o meu quarto (II)


À primeira vista não conseguia encontrar relação entre o amor que sentira por Londres quando a conhecera pela primeira vez, e o amor que deixara em Lisboa, quando dela se despedira na colina dos aflitos, por entre lágrimas de crocodilo, a mirar o Tejo e a deitar contas aos tostões da vida. Reconhecia bem serem amores diversos, daqueles que não se explicam e nem se anulam, antes se completam e fazem pensar várias vezes antes de enfrentar uma ribanceira de decisões difíceis. Fê-lo sem olhar para trás. Juntara-se aos milhões de forasteiros daquela urbe cinzenta ia para três anos. Uma casa em Ladbroke Grove, com renda paga a meias com outra estrangeira. Todos os dias, enfrentava a rua com um umbrella recolhido na bolsa. Recebia o primeiro jornal da manhã das mãos de um desconhecido de rosto afunilado dentro de um gorro quente, e continuava sem pressas a fruir a salgalhada de vozes que exercitavam récitas perras em busca do sotaque mais cumpridor. O seu rosto contempla e triunfa. Divertia-se com os canalhas que açambarcavam carteiras no metro. Reconhecia-lhes tiques e frustrações. À noite voltava a Ladbroke Grove, invocava pressas e deixava-se cair na cama à procura das memórias que lançara pela janela quando se deportou de Lisboa e por lá deixou um pedaço de vida. Guiara os sentidos para um prato de frango "peri-peri" quando por uma vez decidiu experimentar o Nando's, cujo "bom proveito" que a seguia por todos os recantos do estabelecimento não a remetia para Portugalzíssimo nenhum. Desencontrou-se dos sabores do país naquelas asas de frango, e decidiu-se a experimentar um outro restaurante em Stockwell Road, onde os sotaques lusos eram bem mais aprimorados, e cujos condimentos de portugalidade a levaram por momentos a recuperar os encantos do país. Mas ali não regressou por não se rever naqueles homens e mulheres anacrónicos, a viver da herança de um Portugal que deixara já de existir. E passou a parar num pub italiano, onde reencontrava colegas de investigação, onde voltava a ganhar vida o bico de Bunsen, e se recuperavam as conversas sobre balões, condensadores, e tubos de ensaio. Mas pelo menos uma vez todos os dias, o metropolitano voltava a conduzi-la às reminiscências da Lisboa de sempre. Até ao momento em que uma voz a advertia: "mind the gap"...

A vida é um carnaval

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira.

(A Felicidade, Vinicius de Moraes / Antônio Carlos Jobim)

E para o ano aqui estarei...

19.2.09

Um mundo com vista para o meu quarto















Era mais um português que atravessava a estação de St. Pancras em direcção ao cais de embarque do metropolitano em King's Cross. E tantos havia que ali assomavam em pronúncias dissonantes: desde os clamores quentes do português adocicado, aos sabores provincianos da língua dos desencontros, manobras de sensações sonoras marcadas no mapa de latitudes distantes. Tomava a Circle Line para se prostrar nas estações junto às margens frívolas de um rio que sentia todos os dias andar um bocadinho para trás. Não o perturbava que o seu dia ganhasse forma nos rostos de todos aqueles londrinos emprestados. Distribuía-lhes as notícias da manhã, em parangonas grosseiras e paródias absurdas, interceptadas por sirenes roucas de fuga à liberdade. O relento dava lentamente lugar a um nevoeiro húmido e espesso que se confundia na fuligem que as chaminés permitiam antecipar. Dali partia já com a jorna embolsada para novas viagens, tormentosas viagens, dali para Kensington, depois para Notting Hill, e finalmente Paddington, de onde o comboio o conduzia rápido até aos limites de Reading, cidade submersa numa palidez suburbana, que fazia jus ao nome e o punha a ler os clássicos durante a hora de viagem num comboio com entradas e saídas a trouxe-mouxe. Assim ganhava a vida. Em Notting Hill, biscates na instalação eléctrica de casas vitorianas mais abastadas. Em Kensington, jardinagem, limpezas e uma amiga secreta, colombiana, que o punha a sonhar com o universo de Aracataca, de que ele jamais ouvira falar, mas que imaginava ter lido em Gabriel, sem nunca de facto ter desfiado uma página. E em Reading, auxiliando a soerguer velhinhos e a acreditar que ali se fazia a vida, a sua, ainda que com dedos impregnados de caca e a mente em qualquer outro pensamento. Era este o português que todos os dias regressava à estação de St. Pancras com a noite já muda e o frio cortante do sopro do Mar do Norte. Era o português que depois se divertia no café de um madeirense, onde vislumbrava num ecrã grande as pernas de jogadores portugueses em duplicado, em dérbis lancinantes e apitos diligentes; e onde bebia mais uma cerveja, para depois voltar a sair e ver nas chaminés apenas o castigo de um jogo de bridge. Este era o português que voltava a si mesmo em escassas horas de sono. Ele que dizia a si mesmo "Good Night", apesar de em pouco mais se aventurar no seu inglês tímido do que nuns "thank you", "Welcome", "Good Morning". E na noite, mais um dia começava...

Muito bem

Hoje ouvi a Ana Lourenço na Sic Notícias agradecer a António Arnaut (o "pai" do Serviço Nacional de Saúde) "ter aceitado o convite" para estar no programa. Muito bem. Muitíssimo bem. Sobretudo vindo de alguém que ficou tão marcada por ter chamado no ar "broche" a um convidado.

18.2.09

O mau costume da felicidade

Não o esconde, vai às putas, e é essa viagem à profundeza mais obscura dos sentimentos que o faz sentir-se realizado. Que moral temos para criticar quem arranja maneira de ser feliz?

Todos os dias me cruzo com ele, e quando acontece apanho-o sistematicamente a folhear a página dos classificados do Correio da Manhã, agarrado à coluna das senhoras que vendem préstimos em massagens ou outras alegorias corporais.

Uma troca de palavras, os olhos percorrem ainda atentos em sentido vertical a plêiade de eslavas, brasileiras e africanas lusófonas que se prestam a serviços diários, com mistura de carinho e atenção.

— Agora ando a visitar uma russa que é espectacular. Já tem cinquenta anos, mas é espectacular como uma miúda de 18 anos.

Ele não quer outra coisa.

Comento em tom jocoso que porventura o ideal seria que cada uma daquelas "massagistas" oferecesse uma primeira consulta gratuita, numa tentativa de fidelização da clientela: cliente satisfeito, voltaria garantidamente.

Responde-me que se isso se tornasse norma, seria só ver clientes a saltitar de primeira consulta em primeira consulta e o negócio morreria. Sou obrigado a concordar, mesmo quando tinha já na ponta da língua o argumento de que num mercado tão competitivo como o das profissionais com actividade de elevado interesse social, isenta de impostos, a concorrência obrigaria a uma descida de preços. Mas penso: que se lixe, a felicidade não tem preço.

Quase todos os dias me cruzo com ele. Sentado na mesma cadeira, a espreitar o infinito, e sempre me diz:

— Conheci uma russa, é espectacular!

A arte de bem abocanhar (II) - Lição e esperma

RICKY
Marco Ribeiro, propunha precisamente que partíssemos então para essa discussão. Como deve ser então esse bico, esse broche bem feito? Esse felatio. Aliás, Marco Ribeiro, tu já terás experiência disso, de receberes o belo do bico de José Manuel Santiago, ele que ficou até com marcas, ao ponto de ter levado pontos na testa, pela violência do esguicho...

MARCO RIBEIRO
De facto, ele ainda hoje usa óculos devido à corrosibilidade do meu esperma.

RICKY
Exactamente, ele que ficou desde então com um problema na vista. José Manuel Santiago, tu que és então o especialista nessa bela arte do bom bico, do bom beijinho, explica-nos então como deve ser feito, que cuidados ter com os lábios, que cuidados ter com a pele - aliás, tu não precisas, precisamente por causa desses cremes naturais que usas...

MARCO RIBEIRO
Ao contrário da Cleópatra, que toma banho em leite de burra, ele toma banho em leite de burro.

RICKY
Burro, cavalo, égua, e tudo o mais.

Santiago, explica-nos então como é essa arte do bico.

JOSÉ MANUEL SANTIAGO
Acho que uma boa brochada deve começar pelo treino, desde pequeno. Eu comecei a pegar em canetas e metê-las na boca, a fingir que era um pénis. Começa por aí.

RICKY
A caneta que é um objecto fininho, e que não custa logo no início, não traz aquela dificuldade. Mas depois é preciso ir engrossando.

JOSÉ MANUEL SANTIAGO
É verdade. É preciso ir engrossando. Caneta, depois passas por um martelo, até que acabas no pénis, não é verdade...

O segredo de uma boa brochada começa por uma boca flexível, que consiga abocanhar o dobro da tua capacidade oral.

RICKY
É importante referir que os lábios devem estar bem oleados, aliás, deve existir humidade no lábio, para que o belo do bico resulte na sua plenitude.

JOSÉ MANUEL SANTIAGO
Isso e também uma coisa muito importante, que é ter um bom hálito. Está comprovado cientificamente que quando abres a boca soltas um vapor e esse vapor se for muito muito forte e desagradável é capaz de fazer murchar o mais forte dos pénis. Portanto, convém ter um bom hálito antes de fazer uma mamada a alguém, convém tomar uma pastilhinha de bom hálito, por exemplo com sabor a mentol. É preciso é flexibilidade. Existem mesmo tribos africanas em que a mulher consegue abocanhar tanto o pénis como um dos testículos.

RICKY
Importante também referir, Santiago, que é importante ter uma úvula flexível, ajuda bastante. Até porque aqueles que gostam de aprofundar o assunto precisam de encontrar uma úvula bastante flexível.

Já vamos voltar a falar dessa arte de como bem abocanhar, para isso temos aqui em estúdio uma especialista, a Madame Débora, que dentro de momentos vai falar e até exemplificar na prática como se faz o bom do boquete.

INTERLÚDIO MUSICAL

17.2.09

Desencontro Pontual
















Por vezes, para encontrar o caminho, é preciso voltar para trás. E não há que ter medo em encetar o caminho inverso. Eu nunca tive medo. Mas também nunca voltei para trás. Mas já me apeei em algumas estações e parti para outros destinos. E também já fui apeado.

"Um homem nasce num comboio, numa carruagem de segunda. É amamentado com o leite proveniente das diversas estações em que o comboio pára. O homem cresce, aprende as coisas triviais, ainda que necessárias, que o amarram à realidade concreta, mas nunca abandona o comboio. Vive uma existência tranquila sem fazer outra coisa senão olhar pela janela, até que o bichinho do amor começa a cavar a sua toca entre a pele e a camisa dele. O homem descobre então que possui um dom desconhecido. Pode evitar qualquer espécie de complicação existencial pelo mero facto de se apear na estação seguinte e tomar o comboio em sentido inverso. Pode repetir esse ardil salvador sempre que quiser, quando a mínima dificuldade ameaçar transtornar a sua tranquila vida de passageiro."

in conto Desencontro Pontual, de Luis Sepúlveda

A arte de bem abocanhar (I)

Alfinetes de peito há-os para todos os gostos. Há quem os prefira virados à esquerda, há quem julgue que a resvalar para a direita denotam um código qualquer, e há até quem tenha escolhido fazer do broche um modo de vida.

Nunca reflecti muito sobre a arte do boquete. Mas sei que há mulheres que gostam de o exercitar, e quase todos os homens gostam de o receber. Mas, porque existem sempre razões que desconhecemos, há mulheres que por um motivo qualquer são capazes de exibir as suas beiçadas em pleno verão, a devorar a cabecinha de um Calippo de Morango sem se fazerem rogadas de sugar todo o liquidozinho daquilo, mas que não são capazes de espetar aquilo na boca de uma vez por todas. E, pior do que isso, nada há de mais constrangedor do que uma sugadela que não potencia o prazer do homem. E do que um homem que não consegue ter prazer sob a acção bocal de uma lady. Há, pois, que doutrinar nesta área. (Que bonito, até pareceu inteligente.)


MARCO RIBEIRO

Enquanto ela se delicia com este meu espantoso margalho, gostaria de dizer que encontrei esta minha velha amiga, que não é assim tão velha, não é assim tão velha como a senhora do Moulin Rouge, encontrei-a ali na casa de banho, estava eu a preparar-me para fazer umas necessidades urinárias, quando a encontrei, estava ela a procurar um brinco, e eis que eu vou para tirar a pila para mijar e lhe acerto num olho...

Ela pediu-me imediatamente desculpa, por ter o olho no caminho da minha pila, e deu-lhe beijinhos, para ela não ficar triste.

É uma velha amiga minha, além de ser uma especialista no broche, é muito boa e muito competente e uma enorme fã do sexo sado-masoquista.

RICKY
Marco Ribeiro, eu perguntava-te então: Quem é ela?

MARCO RIBEIRO
É a Marie Margarite, mais conhecida por Madame Débora, ou Miss Chinquilha, a mestre da ameijoa e do chicote.

RICKY
Boa noite, Madame Débora!

MADAME DÉBORA
Boa noite!

RICKY
Como é que está a sua boquinha, hoje?

PAUSA

RICKY
Lá está, ela está bastante ocupada, nesta altura com os 73 centímetros de bacamarte de Marco Ribeiro. Recordo que José Manuel Santiago tem apenas 33 centímetros, e eu tenho metro e trinta e dois de pau, e quem quiser comprovar que venha aqui ao estúdio.

Consta, Madame Débora, que a sua boca serve de fita métrica, é verdade?

MADAME DÉBORA
Apesar de ter um boquinha muito pequena, toda a gente gosta. Nunca ninguém se queixou. Uma pessoa tem de saber sugar a essência.

RICKY
Sugar a essência. Geralmente é no fim que se suga, não é?

MADAME DÉBORA
É!

RICKY
E costuma engolir?

MADAME DÉBORA
Claro que sim! Para ficar bem alimentada!

Além disso, porque está provado que se as mulheres praticarem sexo oral pelo menos duas vezes por semana diminuem o risco de problemas de pele...

15.2.09

Passagens de Lisboa #5















Como naquele dia, querida e saudosa amiga, em que os três subimos à Rua da Saudade, aquela que faz agora todo o sentido, para descobrir Lisboa num tempo antigo, naquele tempo em que centuriões e gladiadores e homens de latim na ponta da língua se passeavam pelas ruas desta nossa urbe. Naquele dia, também de calor como o de hoje, em que os três subimos com dificuldade aquela escadaria de degraus íngremes, imersos em vida e grávidos de esperanças.

13.2.09

As Cores da Amizade

Nunca consegui compreender muito bem os preceitos de uma amizade colorida, embora tenha tido várias. De uma forma resumida, podemos dizer que uma amizade destas acontece quando duas pessoas se encontram de livre vontade para desalmadamente trocarem lambidelas em todos os poros, viajarem sobre o fôlego alheio, encetarem uma permuta de toques mútuos como discípulos de Midas. Ou dedicarem-se simplesmente à fornicação crua, uma espécie de sushi sexual, mas com forte tendência para os sabores e a consistência de um naco de carne barrosã.

A cena colorida é tudo isto, é sexo do bom e lá pelo meio são beijinhos. Chamar-lhe-ia: o rendimento mínimo da distribuição dos afectos.


A Amizade e o Sexo

Tive várias amigas que talvez se encaixassem no tal conceito de "coloridas". Uma de cada vez, porque não conceberia esta modalidade com simultâneas, nem isto é xadrez e nem eu sou o Boris Spassky. Quantas vezes me meti no carro para me encontrar com a minha amiga colorida, para ser feliz com prazo marcado, como um iogurte, sem açúcares, só mesmo com a vontade e o prazer. Basta uma mensagem recebida no telemóvel para detectarmos um défice no saldo dos afectos. E lá vamos nós...

Neste tipo de relações, os assuntos costumam estar devidamente compartimentados. O sexo não se mistura com o resto, e o resto não se mistura com o sexo. Depois da fusão dos corpos, vem a conversa, a partilha de preocupações, a emancipação do desejo, um "como estás", um "hoje sinto-me problemática", um "estou cá para o que for preciso". Mas há uma pergunta que apesar de toda a intimidade nunca existiu: "e namorados(as)?"

E a grande vantagem neste género de relações bicéfalas, é que de facto a Amizade existe. Por alguma razão, talvez pela ausência de compromissos para além do respeito mútuo ("fodes comigo, não fodes com mais ninguém, e se quiseres foder com mais alguém, deixas de foder comigo"), as relações perduram, mesmo quando a cor se esbate, mesmo quando os tons pardos vão tomando conta das nossas vidas; terminam as aventuras cromáticas, permanece a amizade.


E quando o Amor acontece


Uma amizade colorida não restringe a busca pelo amor verdadeiro. E esse é talvez um dos principais desafios postos a uma amizade colorida. Ou se é demasiado impessoal, ao ponto de cada um poder evadir-se para a sua parte sem se esperar que dê cavaco à outra parte, ou é uma amizade verdadeira e então existe um respeito acrescido.

Mas, e quando lá longe o amor acontece, o verdadeiro amor? Como quebrar os elos de uma corrente forte como é a amizade colorida? Como lhe retirar a parte do "colorida" de modo a guardar a "amizade"? Quando tal me sucedeu, durante uns dias andei com um nó no estômago. Recebia mensagens coloridas com convites para cafés, para jantares, para ver o mar. Convites que recusava sem apresentar justificações plausíveis. Por um lado, a pessoa que amava e à qual pretendia ligar-me. Por outro, alguém que merecia todo o meu respeito, e a quem devia o mundo. Alguém que me nutriu de afectos durante o tempo da míngua alimentar...

Como dizer a alguém, "a amizade colorida vai ter de terminar, estou apaixonado?" Na prática (e isto posso dizê-lo também por experiência própria), uma amizade colorida interrompida é uma amizade colorida em stand-by. É que os amores vão-se. As amizades coloridas vêm-se. Nunca nos curamos de uma amizade colorida, somos e seremos sempre dependentes em recuperação, prontos a ter a próxima recaída.

A verdade é que a malta às vezes queixa-se da vida que leva, mas devo dar graças pelo facto de trabalhar no que quero, ser pago por isso, e gostar do que faço. Não voltarei a praguejar sobre isto (pelo menos nos próximos 3 dias).

Passagens de Lisboa #3
















Subi aos miradouros que contemplam Lisboa. O Eléctrico 28, uma das personagens da nossa história comum, deslizando sobre os carris que desaguam nos vários olimpos desta cidade. Imaginei-me ali contigo, como se nós fossemos um, e tu fosses eu e eu fosse(s) tu. Tu, minha fotógrafa ocasional.

12.2.09

Passagens de Lisboa #2
















Continuei pela Sé de Lisboa, sempre bela, onde entrei e observei a monumentalidade de todas aquelas pedras matematicamente emparelhadas, evitando fotografar no interior para não perturbar o repouso dos que sob o lajedo jazem. Atentei para aqueles que, como turistas, dão graça de visitantes. Ali, poderia estar a minha interlocutora perdida. Senti que o rol de coincidências, que desconhecia terem-se formado ao longo dos anos como cristais na nossa existência, poderia também juntar-nos ali, aglomerados como pedras, mas distantes de saber da presença um do outro.

Palavras (II)

Matava o bicho com duas torradas e uma caneca de café com leite, desorientado no meio do meio de tanto vapor suspeito, névoa de sofrimentos que lhe acordavam o dia sem novidades numa viagem pelo nevoeiro das notícias da manhã, espreitando de soslaio o aparelho funesto das imagens a ritmo constante, que anunciava complicações para lá do nó da Buraca, e entre os vapores matinais de uma caneca de café com leite, contemplava aquele estranho repetir de circunstância, de cada dia igual ao anterior. Dali a pouco, a busca da intimidade em folhas que vertiam tinta fresca de ideias antigas, o olhar viajando num mar de anúncios de jornal, cruzeiro de primeira classe com mapa do tesouro que não aceita passadas em falso, como se o futuro se desenhasse ali, na semântica abreviada de duas ou três frases de sepultura, à procura de gente viva, ou que dominasse a estranha arte de arquear circulares. Por isso, como sempre, Minotauro à procura da saída do labirinto dos vapores desorientados do café da manhã, concluía que as palavras não o levavam a lado nenhum, apenas a locais que desconhecia, emergências sem saída, eram afinal apenas os trilhos de Dédalo, ocultos na estranha composição de um caderno de classificados.