14.3.10

O problema da vida

"O coração, se pudesse pensar, pararia"
Fernando Pessoa

Por vezes, para compreendermos a vida, é preciso compreendermos a morte. Mas quando compreendemos a morte, reparamos que já é demasiado tarde para tentarmos explicá-la. Escrevi isto a pensar nas pessoas que decidem abandonar a vida porque esta os abandonou, porque não encontraram solução. Se é, ou não, o caminho mais fácil, se é a saída que os mais frágeis escolhem, não sei, nem estou interessado em discutir. Sempre me intrigou, e sempre constituíram para mim um dilema, as razões que levam as pessoas a abeirarem-se dos precipícios da vida e a dar o passo fatal. Que raio de desespero incurável é este que os persegue a ponto de se deixarem morrer?

Não compreendo a nossa surdez, a nossa cegueira, a nossa crueldade, que contribui para empurrar estas pessoas para a beira do tal precipício; como não somos capazes de escutar, como não somos capazes de ver, como não reparamos que por vezes os gritos mudos e cegos e surdos se contorcem mesmo ao nosso lado. E como esticamos até ao limite o elástico da nossa indiferença, e não somos capazes de perceber que estamos tão simplesmente a... matar alguém.

Este texto foi reescrito depois de conhecidos os casos de um aluno e um professor que foram afrontados com o dilema da vida

4 comentários:

Miss Complicações disse...

Isto é algo que já me levou a pensar se abandonar a vida é um acto de coragem ou cobardia.
Esta é apenas mais umas das muitas questões para as quais nunca hei-de encontrar resposta. Somos frágeis, demasiado frágeis e isso assusta-me. Por muito forte que sejamos nunca sabemos se um dia os nossos pilares serão abalados. O melhor é ir reforçando-os diariamente.

PS. Isso de fazer pedidos e sair sem consumir não está com nada.

Bruno disse...

pre-scriptum:
Tanga Rísy, Compli... Fiz o pedido e vou consumir. Estou só à espera que passe o período de funcionamento e que o estabelecimento fique vazio para poder servir-me. Lá irei, até porque muito existe para dizer sobre a temática "umbigo".

Scriptum:
Abandonar a vida é um acto de coragem, mas enfrentá-la é ainda mais. Mas este é o meu ponto de vista, e como já se percebeu os meus pontos de vista são assim uma espécie de galinhas sem cabeça a esvoaçarem pelo quintal.

post-scriptum;
Essa história de fazer de Zezé Camarinha nos semáforos é cool. Dá-lhe, garina. Força no imbigo.

Gingerbread Girl disse...

Penso nisto muitas vezes.
Não faço a mínima ideia do desespero esmagador que leva uma pessoa a fazer algo assim.

O professor podia ter-se despedido... o miúdo podia ter-se recusado a voltar à escola... mas ambos escolherem outro destino.

É triste. Dá que pensar... dá muito que pensar.


*

Só Avulso disse...

Tens toda a razão naquilo que disseste. O desespero, a tristeza, a ausência de auto-estima... tudo isso deve ser tão profundo, tão doloroso, tanto que só quem por isso passa consegue explicar mas, às vezes, muitas vezes, nem esses nos podem explicar porque quando quiserem contar já é tarde demais.

Somos mas é a sociedade do "tarde demais". Só depois do erro é que tomamos consciência. Por vezes é tarde demais outras simplesmente tarde.